Introdução

Mirandela foi das poucas vilas de Trás-os-Montes, que logo no início do século XVI tiveram Santa Casa da Misericórdia. A fundação, no dizer unânime dos Historiadores, data de 1518, reinava ainda D. Manuel I. è de supor, que tal beneficio fosse devido à influencia dos Távoras na Corte, que muito frequentavam e a transplantariam para aqui, vila de que eram donatários a benfazeja Instituição, patrocinada pelo monarca.

A Primeira Construção, Após a fundação da Santa Casa da Misericórdia, foi a Igreja, mas por ser de Materiais muito fracos não chegou a durar dois séculos de existência, entrando rapidamente em ruína. Dia 26 de Novembro de 1671, teve lugar a arrematação das obras de construção de um novo templo, na Praça Velha e que serviu ao longo dos tempos para as cerimónias litúrgicas da Instituição, que é o mesmo que ainda hoje ali existe.

Apresenta pequenas diferenças em relação ao plano exposto no auto de arrematação, uma porta travessa que hoje não existe e que seria inutilizada pelas obras do Hospitel; no frontispício fizeram três portas, em vez de uma planeada.

Desde a época em que os religiosos “Trinos” ocuparam a casa do Hospital e o templo da Misericórdia e que durou um século, vêem-se no frontispício, em dois nichos cavados na espessura da parede, duas estátuas de granito, representando os fundadores da Ordem da Santíssima Trindade, S. João da Mata e S. Félix de Valois.

O Hospital, embora pobre, ia servindo para o fim a que fora destinado até que, pouco depois de 1717, ano em que os fardes Trinos Descalços se instalaram no edifício, deixou de existir como tal e, por escritura, tomaram conta da casa, ocupando-a, mas obrigando-se os ditos frades a ensinar gramática aos filhos dos habitantes da vila.

Isto levou a que se alterassem os grandes objectivos prioritários da misericórdia, embora o ensino fosse de uma importância vital para as populações do concelho.

A persistência da Irmandade em querer reaver a casa do antigo Hospital e utilizá-la de novo para tratamento dos doentes concretizou-se em 1817.

Na primeira sessão dos mesários, constatou-se que se haviam desencaminhado, não só os livros antigos, mas também o próprio Compromisso e títulos dos bens, cujo tombo não existia, os forais tinham-se perdidos, as escrituras haviam-se extraviado.

Em 1859, o Hospital já prestava reconhecidos serviços, embora a pobreza da Instituição não permitisse, por desgraça da vila e do concelho, melhorar tão deficientes instalações, acanhadas e nada higiénicas, e tão indispensável numa região pobre como a que servia e beneficiava.

Em 1880, com os mais louváveis intuitos de caridade e patriotismo, algumas senhoras Mirandelenses constituíram-se em comissão para angariarem recursos, que tornassem possível a edificação de um Hospital mais amplo e em local desafogado e higiénicos.

Esta generosa tentativa ressentiu-se do meio pobre e as receitas foram insignificantes. Muitas outras Comissões e ilustres Mirandelenses, organizaram, exercendo as suas influências, mas todas as tentativas de construção de um novo Hospital fracassaram e durante mais cinquenta anos se lutou por um sonho que se concretizou somente em 1952. Então, Sr. Ministro das Obras Publicas concedeu uma verba correspondente a 62,5 por centro do valor total, mas o restante era demasiado para uma Santa Casa, completamente descapitalizada e sem meios de angariar tanto dinheiro.

O Sr. Ministro do Interior, Dr. Joaquim Trigo de Negreiros, ilustre Mirandelense natural de Barcel, residente em Abreiro e bem feitor da Misericórdia exarou o seguinte despacho: «Tratando-se de um Hospital Regional, a despesa com a sua construção devia constituir normalmente, um encargo do Estado, por intermédio das construções Hospitalares. Por isso, só a necessidade inadiável de se proceder imediatamente à construção do Hospital, dado o estado em que se encontra o actual é que a Misericórdia para a solução adoptada, ou seja para a construção em regime de comparticipação. Assim, atendendo que se trata de um Hospital destinado a desempenhar as funções de Hospital Regional, concedendo-lhe um subsídio correspondente a 30 por cento da obra.»

Trigo de Negreiros foi de facto o maior benfeitor da Santa Casa, pois além do Hospital, construiu Também o Centro de Assistência, designado por Dispensário, foi ele ainda, quem mais investimento trouxe para a Região de Trás-os-Montes. Preocupou-se com o ensino, construindo escolas; com a saúde, criando Hospitais em todos os Concelhos, em parceria com as Misericórdias e também com a agricultura, apoiando os projectos de inovação e desenvolvimento implementados pelo Eng. Camilo Mendonça, através da Federação dos Grémios da Lavoura do Nordeste Transmontano, com sede no Cachão.

O novo Hospital foi inaugurado quatro anos depois, a 20 de Maio de 1956, com a realização de uma grande festa em que se homenageou assim, o homem, o estadista, o amigo Trigo de Negreiros. A cerimónia contou com a presença de muitos milhares de pessoas.

A Câmara Municipal e a Santa Casa sensibilizaram toda a população do concelho, organizando um cortejo de oferendas e grupos folclóricos representativos de todas as freguesias.

Nenhum destes grandes obreiros, que muito trabalho tiveram para ver concretizado um sonho de décadas, pensaram que um dia a Instituição pudesse vender a sua jóia da coroa.

Efectivamente, já sob a presidência do actual Provedor, a Mesa Administrativa tomou a deliberação de vender o Hospital, pelo valor de quinhentos e trinta e três mil contos, ao Ministério da Saúde, para ser transformado numa moderna Unidade Hospitalar.

Dia 29 de Janeiro de 1998 foi celebrada a escritura pública da venda, encerrando-se assim o capítulo da Saúde, na História da Santa Casa que muito a dignificou, assumindo-se o compromisso de aplicar o dinheiro na construção de um equipamento para Cuidados de Saúde Continuados, denominado de “Hospitel”.

Passados estes anos continuamos à espera que o Ministério da Saúde reconheça a importância do trabalho das Misericórdias, como complementar dos serviços prestados em Unidades de Saúde, sendo a grande maioria dos doentes, pensionistas reformados que necessitam de cuidados continuados e muitas vezes não têm retaguarda familiar de suporte, pelas mais variadas razões, nem espaço físico adequado, na sua habitação, condizente com as necessidades, tais como instalação de camas articuladas, movimentação de cadeira de rodas, etc.

É urgente estabelecermos parcerias eficazes, pois a Misericórdia, por si só, não consegue resolver todos os casos sociais que vão surgindo a um ritmo preocupante.

A Segurança Social não actualiza os Acordos de Cooperação há vários anos como se a vida fosse imutável. Os projectos novos, as remodelações, alterações e manutenção dos equipamentos não são comparticipados, degradando-se tudo naturalmente. As Instituições estão completamente descapitalizadas para efectuar estas obras, no entanto a Misericórdia está sempre presente quando há problemas e não sabe dizer não, procurando as alternativas adequadas.

Sente-se no dia-a-dia, que a Segurança Social é uma entidade ausente. Precisávamos de uma liderança actuante e dinâmica na implementação de projectos de apoio às classes etárias mais desprotegidas, quer se trate de idosos, deficientes, jovens e crianças, incentivando os parceiros mais renitentes ou antes, resistentes, a maior parte das vezes, catalogando as pessoas como simples números. Sejamos práticos e trabalhadores, e acima de tudo eficientes, eliminando muitos serviços com funções semelhantes. Da nossa parte, estamos abertos à inovação, à criatividade, ao humanismo e ao relacionamento franco e leal com os diferentes parceiros envolvidos nas problemáticas que afligem as populações do concelho.

A Rede Social, a Carta Educativa e a estratégia de desenvolvimento, são documentos fundamentais, que a Santa Casa integra os objectivos de grupos de trabalho, definem com muita clareza as linhas mestras de actuação das autarquias locais, das entidades oficiais, Sector Público e Privado, Cooperativa e Social, para que nas próximas décadas tenhamos um rumo bem definido e de progresso. A crescente visibilidade da Instituição de âmbito concelhio, assume, no meio populacional, um papel cada vez mais preponderante, aposta no desenvolvimento e na procura de um serviço com cada vez mais qualidade, apesar das dificuldades económicas. Com a evolução dos tempos e em resposta às crescentes solicitações da sociedade actual e dos cidadãos naturais e residentes no concelho, a Santa Casa é sem dúvida, a Instituição de Solidariedade Social mais importante no meio em que exerce a sua influência.

Os idosos, os deficientes, as crianças e jovens, e com especial destaque, os mais necessitados, foram e continuam a ser a grande preocupação da Instituição, o que caracteriza bem toda a acção interventiva da Santa Casa, cuja atenção primordial é, pois, a melhoria da qualidade de vida da população do Concelho de Mirandela. O envelhecimento da população continua a ser um problema que a Santa Casa procura minimizar, garantindo a todos os idosos a prestação de uma vasta opção de serviços, de modo a minimizar as dificuldades inerentes quer à idade quer ao próprio isolamento familiar e social a que muitos deles estão votados.

Deste modo tem sido e continua a ser prioridade da Mesa Administrativa, o apoio domiciliário prestado no meio rural, a partir dos diferentes Centros de Dia, não desenraizando as pessoas do seu meio natural de vida, recorrendo aos serviços de internamento na valência “Lar”, que também oferece à população, quando estes não tiverem condições de se manterem sozinhos em sua casa.

Face às inúmeras solicitações e à já extensa lista de espera, foi decidido, unicamente com o apoio financeiro da Santa Casa, a construção do Lar de S. Sebastião, em Vale de Salgueiro, estando neste momento, ocupadas as 25 camas, embora seja indispensável proceder à sua ampliação para condignamente, receber os seus utentes.

Como objectivos estratégicos, pensamos construir os Lares em S. Pedro Velho e Abreiro e o Centro de Acolhimento Temporário em Paradela, desde que sejam reunidos os meios financeiros para a sua concretização e para isso contamos incondicionalmente, com a ajuda da Câmara Municipal de Mirandela e das Juntas de Freguesia. Dar-se-á, deste modo, resposta a um maior número de utentes nas diferentes valências, nesta primeira fase, aumentando assim, a qualidade dos serviços prestados.

Relativamente à infância e juventude, continuamos a apostar na melhoria dos seus quatro equipamentos, nos respectivos apetrechamentos e na introdução, no C. A. T. L., das Academias ligadas essencialmente, à Música, às Artes e Ofícios.

Também nos propúnhamos construir um novo equipamento denominado “Palmo e Meio”, no entanto, dada a reorganização do sector público, do pré-escolar e do 1º ciclo, dentro das perspectivas da Carta Educativa, aguardamos o desenvolvimento da proposta final.

Anúncios